Cura

…na Revista O2/Junho.

Esta é provavelmente a mais dolorosa das constatações para um corredor: mais cedo ou mais tarde, uma lesão interromperá sua corrida. A coisa pode ser tão desagradável – ainda que te deixe de molho por apenas algumas semanas – que, no processo, dá para perceber os famosos estágios psicológicos: negação, isolamento, revolta, barganha, depressão e aceitação. Começa com aquela fisgada, que pode ser na coxa, na panturrilha. Você até tenta continuar, mas chega uma hora e… Não dá mais. Isso não é nada, só colocar gelo por 24 horas, depois de amanhã está tudo bem. Mas, ops, parece que está inflamado, melhor passar no ortopedista. E sai do consultório absolutamente cético: “De duas a três semanas de repouso… Esse médico acha que é quem? Em três dias estou correndo, aposto”. É a negação.

Uma semana depois, você manca, sofre – e tem certeza que é porque não está dedicando-se suficientemente ao tratamento. Decide que o melhor é abandonar por uns tempos qualquer vida social. Não atende mais o telefone, trabalha de fones de ouvidos, conversar com os amigos da assessoria esportiva, nem pensar. Isolamento. E nada do maldito músculo melhorar. A essa altura, tentar falar com você passa a ser classificado como “atividade de risco”, um olhar mal-direcionado estraga seu dia, até sentir uma pontinha de vontade de acelerar o carro quando um corredor cruzou sua frente no sinal amarelo, você sentiu. Dez dias sem correr e você é uma criatura revoltada. E daí, algum problema?…

Depois de quase duas semanas de bolsa de água quente três vezes por dia, repouso e compreensível mau-humor, você olha para o céu e tenta uma negociação. “Não como mais chocolate nem tomo cerveja por um ano se ficar curado!” A bem do seu próprio desempenho isso não deveria ser nem sacrifício, mas vamos ver se Alguém aceita o trato. Barganhar com Deus? Coisa feia… A vida ficou cinza depois de duas semanas sem uma gota de endorfina. Nada mais tem graça, a comida está sem gosto, ninguém te ama nem se importa com sua dor. Deprê total.

O que lhe resta se não aceitar o interminável período de inatividade como única forma de cura? Pensando bem, até que um descanso fará bem. Dar férias para a “carcaça veia”. Incrível, mas até aquela outra dorzinha que vez por outra te incomodava parou de vez. O negócio é preparar-se mentalmente porque, quando você retornar, aí sim, o bicho vai pegar de verdade – vai faltar asfalto e sola para a “volta do corredor”. E, exatos 21 dias depois, você calça o tênis e sai trotando. Novo em folha. Zero dor. E, quando, para beber água, ri em pensamento: “Eu disse que aquele médico não sabia de nada…”. E alguns casos, a tal barganha divina pode vir em forma de uma pequena amnésia.

Corra!

Zé Lúcio Cardim

zelucio@esferabr.com.br

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2 Respostas to “Cura”

  1. genial.

  2. 🙂
    Grande mestre heim !

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